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Fundamentalismo e Fundamentalistas

Por AUGUSTUS NICODEMUS

Introdução
Para muitas pessoas, o tema deste artigo pode parecer árido, acadêmico e sem qualquer importância. Entretanto, considerando os argumentos abaixo, sua relevância ficará clara. Primeiro, o fundamentalismo está em evidência no mundo. Em todo o mundo, grupos religiosos fundamentalistas estão crescendo rapidamente. Na América Latina, grupos pentecostais radicais se multiplicam e mudam as estatísticas gerais. Na Coréia do Sul e no Taiwan, centros do Confucionismo neotradicionalista se firmam. No Japão, uma nova versão radical do Budismo cresce rapidamente. E o fundamentalismo do mundo islâmico é conhecido por todos. Nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, o fundamentalismo cristão ganha força, após um período de aparente extinção. Muito embora existam profundas diferenças entre estes grupos mencionados, eles têm em comum o desejo de retornar aos fundamentos e às origens de sua religião, e estão dispostos a lutar para isto.

Segundo, o termo "fundamentalista" designa uma larga porcentagem do cristianismo norte-americano, com ramificações no mundo e também no Brasil. A influência do fundamentalismo no Brasil não pode ser esquecida ou minimizada.

Terceiro, o uso pejorativo do termo. Determinados termos, dentro do Cristianismo, acabam por perder seu sentido original e adquirir uma conotação pejorativa. Não poucas vezes, estes termos pejorativos são usados irresponsavelmente para rotular adversários políticos e eclesiásticos, e com generalizações injustas. Se pudermos, devemos sempre ajudar a esclarecer o que o termo significa.

E, finalmente, existem bem poucos estudos sobre o tema "fundamentalismo" no meio evangélico. Se pudermos ajudar no esclarecimento da Igreja de Cristo sobre este assunto, ficaremos gratos a Deus. É neste propósito que publicamos este artigo.

O Surgimento do Liberalismo Teológico
A melhor maneira de compreender a origem do termo "fundamentalista" é entender o crescimento do liberalismo teológico radical nas principais denominações históricas dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX. O liberalismo era, de muitas maneiras, um fruto do Iluminismo, movimento surgido no início do século XVIII que tinha em seu âmago uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. As pressuposições filosóficas do movimento eram, em primeiro lugar, o Racionalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz, e o empirismo de Locke, Berkeley e Hume. Os efeitos combinados dessas duas filosofias — que mesmo sendo teoricamente contrárias entre si concordavam que Deus tem de ficar de fora do conhecimento humano — produziu profundo impacto na teologia cristã.

Em muitas universidades cristãs, seminários e igrejas da Europa, e, posteriormente, nos Estados Unidos, as idéias racionalistas começaram a ganhar larga aceitação. Não é que os teólogos se tornaram ateus ou agnósticos, mas, sim, que procuraram compatibilizar a crença em Deus com os postulados do Racionalismo. Muitos teólogos passaram a afirmar a existência de Deus, mas negavam sua intervenção na história humana, quer através de revelação, quer através de milagres ou da providência.

Como resultado da invasão do Racionalismo na teologia, chegou-se à conclusão de que o sobrenatural não invade a história. A história passou a ser vista como simplesmente uma relação natural de causas e efeitos. O conceito de que Deus se revela ao homem e de que intervém e atua na história humana foram excluídos "de cara". Como conseqüência, os relatos bíblicos envolvendo a atuação miraculosa de Deus na história, como a criação do mundo, os milagres de Moisés e os milagres de Jesus passaram a ser desacreditados. Já que milagres não existem, segue-se que esses relatos são fabricações do povo de Israel e, depois, da Igreja, que atribuiu a Jesus atos sobrenaturais que nunca aconteceram historicamente.

Para se interpretar corretamente a Bíblia, seria necessária uma abordagem "não religiosa", desprovida de conceitos do tipo "Deus se revela", ou "a Bíblia é a revelação infalível de Deus" ou ainda, "a Bíblia não pode errar". Teólogos protestantes que adotaram essa abordagem crítica (que consideravam como "neutra") justificavam-se afirmando que a Igreja Cristã, pelos seus dogmas e decretos, havia obscurecido a verdadeira mensagem das Escrituras. No caso dos Evangelhos, os dogmas dos grandes concílios ecumênicos acerca da divindade de Jesus haviam obscurecido a sua figura humana e tornaram impossível, durante muito tempo, uma reconstrução histórica da sua vida. Essa impossibilidade, eles afirmavam, tornou-se ainda maior após a Reforma, quando a exegese dos Evangelhos e da Bíblia em geral passou a ser controlada pelas confissões de fé e pela teologia sistemática.

Os estudiosos críticos argumentaram ainda que, para que se pudesse chegar aos fatos por detrás do surgimento da religião de Israel e do cristianismo, seria necessário deixar para trás dogmas e teologia sistemática, e tentar entender e reconstruir os fatos daquela época. O principal critério a ser empregado nessa empreitada seria a razão, que os racionalistas entendiam como sendo a medida suprema da verdade. As ferramentas a serem usadas seriam aquelas produzidas pela crítica bíblica, como crítica da forma, crítica literária, entre outras. Assim, muitos pastores e teólogos que criam que a Bíblia era a Palavra de Deus, influenciados pela filosofia da época, tentaram criar um sistema de interpretação da Bíblia que usasse como critério o que fosse racional ao homem moderno, dando origem ao chamado "método histórico-crítico" de interpretação bíblica.

Os estudiosos responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento inicial do método crítico defendiam que o "dogma" da inspiração divina da Bíblia deveria ser deixado fora da exegese, para que a mesma pudesse ser feita de forma "neutra". Seguiu-se a separação entre Palavra de Deus e Escritura Sagrada, rejeitando-se o conceito da inspiração e infalibilidade da Bíblia. Surge a idéia de "mito" na Bíblia, que era a maneira pela qual a raça humana, em tempos primitivos, articulava aquilo que não conseguia compreender. Segundo os exegetas críticos, as fontes que os autores bíblicos usaram estavam revestidas de "mitos", ou lendas criadas por Israel e pela Igreja apostólica. O surgimento da dialética de Hegel marcou esta fase. Hegel oferecia uma visão da história sem Deus, explicando os acontecimentos, não em termos da intervenção divina, mas em termos de um movimento conjunto do pensamento, fazendo sínteses entre os movimentos contraditórios (tese e antítese).

A tentativa de unir o Racionalismo com a exegese bíblica não produziu um resultado satisfatório. Ficou-se com uma Bíblia que deixou de ser a Palavra de Deus para se tornar o testemunho de fé do povo de Israel e da Igreja Primitiva. Como resultado, surgiu um movimento dentro do cristianismo que se chamou liberalismo, o qual rapidamente influenciou as igrejas cristãs na Europa, e de lá, seguiu para os Estados Unidos, onde defendia os seguintes pontos:

1. O caráter de Deus é de puro amor, sem padrões morais. Todos os homens são seus filhos e o pecado não separa ninguém do amor de Deus. A paternidade de Deus e a filiação divina são universais.

2. Existe uma centelha divina em cada pessoa. Portanto, o homem, no íntimo, é bom, e só precisa de encorajamento para fazer o que é certo.

3. Jesus Cristo é Salvador somente no sentido em que ele é o exemplo perfeito do homem. Ele é Deus somente no sentido de que tinha consciência perfeita e plena de Deus. Era um homem normal, não nasceu de uma virgem, não realizou milagres, não ressuscitou dos mortos.

4. O cristianismo só é diferente das demais religiões quantitativamente e não qualitativamente. Ou seja, todas as religiões são boas e levam à Deus; o cristianismo é apenas a melhor delas.

5. A Bíblia não é o registro infalível e inspirado da revelação divina, mas o testamento escrito da religião que os judeus e os cristãos praticavam. Ela não fala de Deus, mas do que estes criam sobre ele.

6. A doutrina ou declarações proposicionais, como as que encontramos nos credos e confissões da Igreja, não são essenciais ou básicas para o cristianismo, visto que o que molda e forma a religião é a experiência, e não a revelação. A única coisa permanente no cristianismo, e que serve de geração a geração, é o ensino moral de Cristo.

Nem todos os liberais abraçavam todos estes pontos, e havia diferentes manifestações do liberalismo. Entretanto, todas elas estavam enraizadas no racionalismo (só a ciência tem a verdade) e no naturalismo (negação da intervenção criadora de Deus no mundo) e queriam adaptar as doutrinas do cristianismo à moderna teoria científica e às filosofias da época.

A Reação Conservadora: Surgimento do Fundamentalismo Cristão

O nome "fundamentalistas" foi cunhado para se referir aos pastores, presbíteros e professores conservadores americanos de todas as denominações históricas que se coligaram para defender a fé cristã da intrusão do liberalismo nos seus seminários e igrejas. O nome foi usado por três motivos. Primeiro, os conservadores insistiam que o liberalismo atacava determinadas doutrinas bíblicas que eram fundamentais do cristianismo e que, ao negá-las, transformava o cristianismo em outra religião, diferente do cristianismo bíblico. Segundo, a publicação em 1910-1915 da série Os Fundamentos, 12 volumes de artigos escritos por conservadores onde defendiam os pontos fundamentais do cristianismo e atacavam o modernismo, a teoria da evolução, etc., dos quais foram publicadas 3 milhões de cópias e espalhadas pelos Estados Unidos. Há artigos de eruditos conservadores como J. G. Machen, John Murray, B. B. Warfield, R. A. Torrey, Campbell Morgan e outros. E terceiro, a elaboração de uma lista dos pontos considerados fundamentais do cristianismo. Muito embora o conflito entre liberais e fundamentalistas envolvesse muito mais do que somente estes pontos abaixo, os mesmos foram considerados na época pelos conservadores como os pontos fundamentais da fé e do cristianismo evangélico, tendo se tornado o slogan dos conservadores e a bandeira do movimento fundamentalista:

1. A inspiração, -infalibilidade e inerrância das Escrituras – reagindo contra os ataques do liberalismo que considerava que a Bíblia estava cheia de erros de todos os tipos.

2. A divindade de Cristo – também negada pelos liberais, que insistiam que Jesus era apenas um homem divinizado.

3. O nascimento virginal de Cristo e os milagres – para o liberalismo, milagres nunca existiram, eram construções mitológicas da Igreja primitiva.

4. O sacrifício propiciatório de Cristo – para os liberais, Cristo havia morrido somente para dar o exemplo, nunca pelos pecados de ninguém.

5. Sua ressurreição literal e física e seu retorno – ambas doutrinas eram negadas pelos liberais, que as consideravam como invenção mitológica da mente criativa dos primeiros cristãos.

Em 1920, o termo "fundamentalistas" foi empregado por conservadores batistas para designar todos aqueles que lutassem em favor destes cinco pontos. O uso se espalhou para todos, de todas as denominações afetadas pelo liberalismo que lutavam para preservar estas doutrinas fundamentais do cristianismo, e que se alinhavam teologicamente com o conteúdo da obra Os Fundamentos.

As principais fases do movimento fundamentalista nos Estados Unidos

Nesta parte, analisaremos o desenvolvimento histórico e teológico do fundamentalismo na Igreja Cristã nos Estados Unidos e no Brasil. Podemos dividir sua história em quatro fases.

Fase 1: Conflito e derrota (até meados da década de 1920)

Nesta fase inicial, líderes conservadores levantaram a bandeira contra o liberalismo ou modernismo dentro de suas denominações. Eles estavam lutando contra a incredulidade, antes que os liberais finalmente tomassem o controle dos seminários e da administração. O objetivo era expulsar os liberais das fileiras das igrejas. Várias medidas foram tomadas com este fim. Entre elas destacamos a publicação da série Os Fundamentos. O alvo foi atacar o naturalismo, o liberalismo e todos os males a eles associados. A inerrância da Palavra de Deus é reafirmada nesta obra como sendo doutrina bíblica e fundamental. Os conservadores, a esta altura já conhecidos como "fundamentalistas", se organizam em associações e em movimentos dentro das denominações. Surgem as listas dos "pontos fundamentais" que, embora variando quanto aos itens, concordam que a inerrância da Bíblia é essencial. As denominações realizam encontros e reuniões para debater o assunto.

Um importante fato ocorrido neste período foi – que J. Gresham Machen e outros importantes professores conservadores deixam o Seminário Presbiteriano de Princeton, que fica nas mãos dos liberais, e fundam o Seminário de Westminster. É publicado o importante livro de Machen, Cristianismo e Liberalismo (1923), um clássico sobre o assunto. Os fundamentalistas tentam também, através dos meios políticos, promulgar leis federais e nos estados, proibindo o ensino do evolucionismo. Mas, são derrotados no caso Scopes (1925), o julgamento de um professor de escola secundária que ensinava evolução em classe. Gradativamente o movimento fundamentalista começa a adotar o pré-milenismo como um dos pontos fundamentais da fé cristã, o que provocará na fase seguinte um importante racha no movimento.

Fase 2: Separação e organização (até meados da década de 1940)

Nesta fase, o movimento fundamentalista percebe o fracasso em expulsar os liberais das fileiras das grandes denominações reformadas, muito embora os conservadores fossem a maioria nestas denominações. Como resultado, separam-se formando novas instituições, associações, igrejas e denominações. São formadas novas denominações, como a Associação Geral de Igrejas Batistas Regulares (1932), a Igreja Presbiteriana da América que em seguida mudou o nome para Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC), liderada por J. Machen (1936), a Associação Batista Conservadora da América (1947), as Igrejas Fundamentalistas Independentes da América (1930) e muitas outras. No sul dos Estados Unidos os fundamentalistas dominaram a maior denominação batista, a Convenção Batista do Sul, a Igreja Presbiteriana do Sul, a Associação Batista Americana e muitas outras denominações. Todos estas defendem os pontos fundamentais, particularmente a inerrância da Palavra de Deus.

Os fundamentalistas formaram também muitas associações e juntas missionárias, seminários e institutos bíblicos, periódicos, conferências bíblicas pelo país afora para evangelização, defesa da fé e treinamento bíblico de pastores, missionários e obreiros. O movimento começa a associar-se com alguns valores morais da cultura americana, como a abstinência completa do álcool.

É nesta fase que o movimento fundamentalista se divide pela primeira vez. A causa da separação foi que muitos fundamentalistas queriam considerar o pré-milenismo como um dos pontos fundamentais do cristianismo. Além disto, havia a identificação crescente deles com a total abstinência de bebida alcoólica e rejeição das descobertas e avanços das ciências. Sai um grupo liderado por Carl McIntire para formar a Igreja Presbiteriana da Bíblia e o Seminário Teológico da Fé (1938). Com ele saíram Francis Schaeffer, Alan McRae, que posteriormente vieram também a afastar-se de McIntire.
O ponto principal é que nesta fase entra no movimento fundamentalista o conceito de separação organizacional de qualquer associação ou denominação que mantenha e tolere liberais em seu meio. Infelizmente, os fundamentalistas entenderam que a separação era a única forma bíblica para manter a pureza da fé e a integridade dos pontos fundamentais do cristianismo. Conseqüentemente, o termo fundamentalista começa a ter conotação de intransigência, divisionismo, intolerância, anti-intelectualismo, e falta de preocupação com problemas sociais. Assim, no final desta fase, o nome "fundamentalistas" se referia aos cristãos conservadores separatistas que eram maioria dentro das denominações ao sul dos Estados Unidos e aos que haviam saído de suas denominações formando outras de caráter eminentemente fundamentalista.

Fase 3: Neo-Evangelicalismo (até meados de 1970)

Nesta fase o fundamentalismo continua a batalha contra o liberalismo, de fora das denominações e contra um novo inimigo, o neo-evangelicalismo. O movimento ganha repercussão internacional. Os fundamentalistas criam programas de rádio e televisão, e fundam faculdades que os mantêm unidos e ligados como numa rede invisível. É então que surge o neo-evangelicalismo ou "evangelicalismo", uma ala dentro do movimento fundamentalista que deseja preservar os pontos fundamentais da fé mas não deseja o espírito separatista da primeira geração de fundamentalistas. O evangelicalismo procura comunhão e associação com outros cristãos, pentecostais, conservadores e mesmo liberais, desejando fugir do rótulo "fundamentalista", embora afirme a princípio a inerrância das Escrituras.

Esta segunda divisão no movimento atinge seriamente igrejas, denominações e seminários fundamentalistas. Os que se consideravam "evangélicos" saem do movimento fundamentalista para formar novas associações e igrejas "evangelicais". Em termos organizacionais, surge nos Estados Unidos o Concílio Americano de Igrejas Cristãs, fundado por Carl McIntire (1941) representando os fundamentalistas e a Associação Nacional de Evangélicos (1942), representando os evangelicais. Surgem o Seminário de Fuller, a revista Christianity Today, o Wheaton College e a Associação Billy Graham, dentro da perspectiva "evangelical". O fundamentalismo começa a atacar o evangelicalismo, considerando-o um grande perigo ao verdadeiro cristianismo, por causa de sua abertura para outros cristãos, associação com liberais e tendência de acomodar a fé à ciência moderna.

Da parte dos fundamentalistas é criado o Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (1948), formado por denominações, igrejas e indivíduos que se identificaram com a bandeira fundamentalista, em oposição ao Concílio Mundial de Igrejas (CMI), ecumênico e liberal em muitos aspectos. Nesta fase, o fundamentalismo se torna menos proeminente, e alguns até pensaram que havia morrido. Na verdade, estava se expandindo firmemente, através da evangelização, publicações, plantação de igrejas e programas de rádio.

Fase 4: Luta contra o Humanismo Secular (até meados de 1980)

A partir da campanha de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos, o fundamentalismo americano entrou numa nova fase. Ganhou proeminência por oferecer uma solução para a crise social, econômica, moral e religiosa da América que envolvia legalização do aborto, proibição da leitura da Bíblia e oração nas escolas públicas, etc. O inimigo era o humanismo secular, responsável por corroer os valores morais, as escolas, universidades, o governo e a família. Os males associados ao humanismo eram: evolucionismo, liberalismo político e teológico, moralidade frouxa, perversão sexual, socialismo, comunismo e o ataque à autoridade das Escrituras. Para combater o novo inimigo, surgem de dentro do fundamentalismo novos ministérios fundados e liderados por uma nova geração de fundamentalistas, utilizando-se da mídia televisiva e impressa. Entre eles: Jerry Falwell, Tim LaHaye, Hal Lindsey, James Dobson, Pat Robertson. A base deles era a Convenção Batista do Sul, mas atingiram rapidamente todas as denominações e também outros países, como o Brasil. Ao contrário de gerações anteriores de fundamentalistas, envolveram-se com questões sócio-políticas. Fundamentalistas antigos, como Carl McIntire, somem do cenário por causa de desgaste político e extremo isolacionismo.

O alvo principal dos ataques fundamentalistas nesta época era o domínio do governo por humanistas e as conseqüências disto para a nação, em termos da libertinagem e relaxamento dos valores morais. Acreditavam que havia uma conspiração humanista para tomar a América e banir o cristianismo. A luta do fundamentalismo é contra os direitos dos homossexuais, do uso de drogas, o movimento feminista, associações com a Rússia, posse de armas. Por outro lado, os fundamentalistas se engajam na luta pelo ensino do criacionismo nas escolas, ao lado do evolucionismo.

Esses novos líderes fundamentalistas mantinham os mesmos pontos doutrinários e a mesma visão separatista da primeira geração de fundamentalistas, embora enfrentassem um outro inimigo, o humanismo secular. Sua mensagem foi de chamar a Igreja a retornar aos fundamentos da Palavra de Deus, como chave para uma nova reforma na sociedade e na Igreja. Neste sentido foi formada a Maioria Moral (1979), sob a liderança de Jerry Falwell, para combater o liberalismo moral e social nos EUA. Nisto se associam com católicos, pentecostais e judeus de pensamento igual ao deles.

O fundamentalismo ganhou mais força nesta época com o fato de que o movimento evangelical começou a dar mostras de que a política de boa vizinhança com liberais e católicos terminava em prejuízo para a fé bíblica. Líderes evangelicais, bem como seminários e publicações evangelicais, começaram a aceitar o evolucionismo teísta, o ecumenismo com católicos e liberais (Billy Graham). Associações evangelicais de teólogos começaram a tolerar teólogos que questionavam mesmo a onisciência de Deus. Por outro lado, os escândalos na década de 1980, envolvendo o casal Bakker, televangelistas fundamentalistas, causaram um grande revés no movimento fundamentalista nos Estados Unidos. Surgem movimentos radicais de dentro do fundamentalismo como o Reconstrucionismo de Gary North e Rushdoony.

Apesar de tudo, o fundamentalismo nos Estados Unidos continua firme e crescendo. O crescimento, entretanto, não se faz em termos denominacionais, mas da multiplicação da mentalidade fundamentalista nos aspectos teológicos e apologéticos, dentro das denominações tradicionais e no crescimento de ministérios, missões, institutos e seminários de posição teológica fundamentalista.

O Fundamentalismo no Brasil: Breve Histórico

Vejamos em breves palavras o impacto do movimento fundamentalista em nosso país e os principais eventos da sua formação e continuidade. Já em 1951 foi fundada por fundamentalistas a Aliança Latino Americana de Igrejas Cristãs (ALADIC), cujo primeiro presidente foi o brasileiro Rev. Synério Lira, do Rio de Janeiro. A ALADIC congregava igrejas fundamentalistas na América Latina e no Brasil e tinha como alvo opor-se na América Latina ao Concílio Mundial de Igrejas (CMI), de orientação liberal e ecumênica. Nesta mesma época, Dr. Israel F. Gueiros, pastor da Igreja Presbiteriana de Recife e ligado ao Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (CIIC), liderou uma campanha contra o Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) sob a acusação de modernismo. O liberalismo teológico já havia chegado ao Brasil e entrado em vários seminários das denominações históricas. Havia professores nestes seminários como Richard Shaull, no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, considerado como o pai da teologia da libertação. No Nordeste, alguns missionários americanos da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) que eram professores do SPN questionavam a integridade dos relatos de Gênesis sobre a criação, atacando a inerrância das Escrituras.

Dr. Gueiros fundou outro seminário e foi deposto pelo Presbitério de Pernambuco em julho de 1956. Em 21 de setembro foi organizada sob sua liderança a Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil com quatro igrejas locais (incluindo elementos batistas e congregacionais), que formaram um presbitério com 1800 membros. A nova denominação se filia ao CIIC e à ALADIC. A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), diante da penetração cada vez maior no país da influência dos dois Concílios surgidos no final da década de 40, toma a seguinte resolução em 1962: -"(1) A IPB reafirma a sua posição teológica e doutrinária formada em termos, não de eqüidistância de qualquer concílio ou conselho ecumênico, e sim em termos de fidelidade às Escrituras do Velho e do Novo Testamento; (2) A IPB reafirma a posição de não envolvimento formal nem em relação ao CIIC, nem ao CMI e outros, não fugindo, porém, a contatos com estes agrupamentos ecumênicos em tudo que não fira seus padrões éticos, nem implique em concessões na área de seus símbolos de fé; (3) A IPB reafirma que não há de sua parte, qualquer resolução ou intenção de filiar-se a concílios ou conselhos ecumênicos de âmbito mundial." Esta posição foi mais tarde reafirmada, em 1966. Nos anos 50 a 90, o movimento fundamentalista floresceu no Brasil, particularmente no Nordeste, realizando congressos, campanhas, mantendo programas de rádio e televisão e publicando literatura. Também expandiu-se no interior de Pernambuco e outros estados, abrindo congregações e igrejas em várias cidades.

Talvez fosse importante mencionar a Igreja Presbiteriana Conservadora (IPC). Esta denominação havia saído da Igreja Presbiteriana Independente por causa da infiltração do liberalismo teológico, havendo pastores que negavam a realidade da eternidade do castigo de Deus sobre os ímpios. A IPC participou em Amsterdam, como fundadora do Concílio Internacional de Igrejas Cristãs, do movimento fundamentalista mundial. Desenvolveu-se como denominação no sul-sudeste e no centro-oeste do Brasil. Permaneceu no CIIC até a década de setenta, quando saiu por discordar de decisões e rumos que estavam sendo tomados pelo CIIC, do qual desligou-se oficialmente em meados da década de 70, diminuindo ainda mais a influência do CIIC no Brasil, que ficou praticamente apoiado pela I.P. Fundamentalista. Os Batistas Regulares já haviam saído do CIIC no final da década de 60.

No final da década de 90, a Igreja Presbiteriana Fundamentalista vê a grande maioria de suas igrejas voltando para a IPB, permanecendo apenas algumas poucas dentro do movimento fundamentalista. Com isto, o movimento se faz representar no Brasil hoje por estas poucas igrejas presbiterianas e algumas igrejas batistas tendo se identificado com o Pentecostalismo tradicional - que abraçou o dispensacionalismo como cerne teológico, a visão restrita de "liberdade cristã" e alguns aspectos da batalha espiritual.

A ALADIC continua realizando congressos a cada três anos: Chile (1992), "Vigiai, Cristo está retornando em breve"; Equador (1995), "Igrejas fiéis evangelizam, edificam e ficam firmes pela fé"; Guatemala (1999), "Maranatha, o Senhor está voltando". O alvo é sempre combater o Concílio Mundial de Igrejas. Mas como movimento, o fundamentalismo não tem mais expressão no quadro evangélico nacional.

Características do Fundamentalismo Brasileiro Atual

Atualmente, o fundamentalismo brasileiro, com possíveis exceções, parece exibir as seguintes marcas características: o dispensacionalismo, o sionismo, separatismo das demais denominações, o Oriente Médio como relógio do mundo, síndrome de uma conspiração mundial ocultista para controlar o mundo, batalha espiritual e a aniquilação futura dos palestinos, entre outras. Além disto, parece ter desenvolvido uma mentalidade de censura e apego a itens periféricos como se fossem o cerne do evangelho (tal mentalidade está presente em muitas de nossas igrejas). Tem declarado guerra especialmente ao surgimento da Nova Ordem Mundial, identificada como o reino do Anticristo, e levantado a bandeira contra itens que julga ser instrumentos de Satanás para promover este Reino, desde símbolos ocultistas espalhados em todo lugar até versões modernas da Bíblia (especialmente a Bíblia na Linguagem de Hoje e a Nova Versão Internacional), a clonagem humana, como um dos fundamentos da nova ordem mundial e os jogos olímpicos mundiais.

É preciso notar que o fundamentalismo brasileiro não está mais restrito a esta ou aquela denominação. É mais uma atitude que se faz presente em igrejas locais das mais diversas denominações e em determinadas missões e instituições evangélicas.

Conclusões
Olhando a história, podemos perceber vários aspectos do fundamentalismo que o caracterizam e definem. Primeiro, o fundamentalismo como movimento teológico de retorno aos fundamentos bíblicos do cristianismo histórico, o qual foi representado pelos conservadores que se levantaram contra o liberalismo no início do século passado e defendendo os cinco pontos fundamentais, entre outros. Neste aspecto, o fundamentalismo se vê, não como um novo movimento, mas como a continuação histórica da fé bíblica.

Segundo, o fundamentalismo como movimento separatista do erro teológico como meio de preservar a verdade cristã. Sob este aspecto, o fundamentalismo crê que não pode haver associação com igrejas, denominações e indivíduos que neguem os pontos fundamentais do cristianismo. Fazer isto seria acomodar a fé cristã ao erro e trair o ensino bíblico de que os cristãos devem se separar dos falsos mestres. Neste aspecto, o fundamentalismo se vê como movimento apologético de defesa da fé, que entende como tarefa da Igreja cristã defender a fé que, uma vez por todas, foi entregue aos santos.

Terceiro, o fundamentalismo como rejeição do conhecimento científico, dos avanços e descobertas modernos, da utilização de novos conhecimentos e métodos na interpretação bíblica. Neste aspecto, desconfia de tudo novo que provenha de descobertas científicas.

Quarto, o fundamentalismo como movimento escatológico, profundamente identificado com o dispensacionalismo, com Israel, com os acontecimentos políticos do Oriente Médio, com a destruição dos palestinos, e que percebe uma conspiração mundial para o surgimento do Reino do Anticristo através do ocultismo, da tecnologia, da mídia, dos eventos mundiais, das superpotências.

Quinto, o fundamentalismo como movimento ativamente identificado política e socialmente com o capitalismo, avesso às questões sociais, inimigo dos sistemas políticos identificados com o ateísmo, como o comunismo e o socialismo.

Muitos cristãos conservadores que não pertencem a denominações fundamentalistas se identificam hoje com aspectos do fundamentalismo, principalmente a aderência aos pontos fundamentais da fé e a defesa da fé cristã, muito embora não aceitem o rótulo "fundamentalista".

Avaliação Crítica do Fundamentalismo

Devemos entender que o fundamentalismo não é um movimento monolítico. Há muitas e diferentes expressões do fundamentalismo. Entretanto, os críticos tendem a tratá-las de forma uniforme e a identificar como fundamentalista qualquer pessoa que exiba alguma característica do fundamentalismo. Lembremos ainda que o termo "fundamentalismo" ganhou conotações muito mais políticas do que religiosas nesses últimos anos, principalmente por causa do Islamismo, que utiliza a religião para fazer política.

Os fundamentalistas vistos pelos críticos

Há muitas críticas feitas aos fundamentalistas por diferentes grupos. Eles são acusados por grupos liberais ou neo-ortodoxos de terem criado o inerrantismo, doutrina resultante da influência do próprio racionalismo e que não é defensável diante das descobertas da ciência. São também acusados por estes grupos de crerem na inspiração verbal plenária, isto é, que Deus teria ditado cada palavra da Bíblia e de terem uma interpretação literatista da Bíblia, que acredita literalmente em cada palavra das Escrituras, rejeitando o método histórico-crítico que representaria um avanço na hermenêutica.

Quanto à apologética, são criticados como "donos da verdade", "guardiões da Igreja" ou "defensores de Deus", por terem uma atitude militante em defesa da fé e contra o que consideram como erro doutrinário e prático. Neste aspecto são freqüentemente chamados pejorativamente de xiitas e de separatistas e divisionistas, que não conseguem conviver com quem pensa diferente deles. Já os grupos feministas acusam os fundamentalistas de machistas, por militarem contra o movimento feminista e especialmente contra a ordenação de mulheres ao ministério.

Os fundamentalistas são ainda considerados como obscurantistas e anti-intelectuais, por desconfiarem das descobertas científicas e do valor delas para a interpretação mais acurada da Bíblia, de isolacionistas e pessimistas quanto ao mundo e ao homem, por não se envolverem em questões sociais e políticas.

No geral, são vistos como um movimento reacionário, movido pelo medo da extinção de si mesmos e da verdade, que se alimenta das crises religiosas, políticas sociais e econômicas para subsistir. São as sobras de um passado distante, atrasados, antiquados e retrógrados. Ainda são criticados como totalitaristas, pessoas que desejam impor suas idéias e sua visão de igreja e de mundo à força, por todos os meios possíveis.

Naturalmente, as críticas feitas aos fundamentalistas dependerão dos posicionamentos teológicos e éticos dos que as fazem. Os cristãos evangélicos reformados e conservadores perceberão que muitas das críticas feitas aos fundamentalistas, na verdade, são ataques ao cristianismo histórico e bíblico defendido por eles, pelo menos nos inícios do movimento.

Como os fundamentalistas se entendem

Vejamos em seguida a concepção que os fundamentalistas têm de si próprios e que se encontra em artigos e publicações escritos por fundamentalistas. No geral, eles se entendem como descendentes e preservadores atuais de tradições antigas, e não manifestações contemporâneas de sobras de um passado distante. Lembram que sua característica distintiva é a interação crítica com a cultura moderna (teologia, filosofia, ciência, etc.). Portanto, não podem ser considerados como antiquários e antiquados. Eles se definem em oposição ao mundo moderno, muito embora firmados na antiga Bíblia.

Eles insistem que o fundamentalismo é mais que a afirmação dos cinco fundamentos. É também uma atitude militante contra todas as afirmações e atitudes anti-bíblicas, na Igreja e na sociedade, e a separação bíblica de quem apóia ou tolera estas afirmações e atitudes. Para eles, o divisionismo e o separatismo são bíblicos, quando a preservação da pureza do Evangelho assim o requeira. As exigências feitas para que alguém pertença às suas igrejas e organizações (conversão, aderência à confissões e credos) não é separatismo ou exclusivismo, mas obediência aos critérios bíblicos visando a pureza doutrinária das igrejas locais.
Negam que sejam anti-intelectuais. Desejam apenas que o raciocínio seja guiado pelos pressupostos bíblicos e não pelo racionalismo e o naturalismo controladores das ciências modernas. Rejeitam da modernidade aquilo que é contrário à Palavra de Deus, mas usam o que é bom e proveitoso, como a tecnologia de comunicações, entre outros. Negam ainda que sejam reacionários e apontam para o fato de que têm desenvolvido meios criativos, através da história, de expressar positivamente a fé bíblica e de apresentar soluções para problemas sociais, morais, espirituais e políticos que afligem o homem moderno. Rejeitam a idéia de que são produto de crises, como os críticos dizem, tentando desta forma rotulá-los negativamente. A organização, a continuidade e o sucesso deles na história (enquanto que seus inimigos já mudaram ou sumiram) mostram que o fundamentalismo é mais que um movimento reacionário que se alimenta das crises da humanidade.

Também negam que sejam alimentados e movidos pelo medo (que é a tese de Karen Armstrong em Em Nome de Deus), não têm receio de extinção e nem que a verdade um dia vai ser extinta da terra. Na verdade, são otimistas e confiantes na vitória final do Reino de Deus e da verdade aqui neste mundo e acreditam que Deus e a história estão do lado deles.Também não se vêem como machistas – sua atitude para com as mulheres no que tange ao ministério cristão (não ordenam mulheres) são em obediência ao ensino bíblico sobre o papel da mulher na Igreja. Na verdade, condenam a agressão feita às mulheres pelos fundamentalistas islâmicos. O fato de que defendem uma sociedade que seja orientada por princípios bíblicos em todas as áreas (escolas, leis, política, economia, artes) não quer dizer que sejam totalitários, os quais se utilizam da força e da violência para impor estes princípios, como no fundamentalismo islâmico.

Em 1976, no Congresso Mundial de Fundamentalistas, na Escócia, a seguinte definição de um fundamentalista foi elaborada:

"Um fundamentalista é um crente no Senhor Jesus, que nasceu de novo, e que:

1. Conserva uma lealdade inamovível à Bíblia, que ele recebe como inerrante, infalível e inspirada verbalmente por Deus.

2. Acredita na veracidade de tudo aquilo que a Bíblia diz.

3. Julga todas as coisas pela Bíblia e é julgado somente por ela.

4. Afirma as verdades fundamentais da fé cristã histórica: a doutrina da Trindade; a encarnação, nascimento virginal, sacrifício expiatório, ressurreição física e ascensão gloriosa, e a segunda vinda do Senhor Jesus; o novo nascimento pela regeneração do Espírito Santo; a ressurreição dos santos para a vida eterna; a ressurreição dos ímpios para o julgamento final e a morte eterna; e a comunhão dos santos, que são o corpo de Cristo.

5. Pratica fidelidade a esta fé e procura pregá-la a cada criatura.

6. Expõe e se separa de todas as negações eclesiásticas desta fé, do compromisso com o erro, e da apostasia da verdade.

7. Contende fervorosamente pela fé uma vez dada aos santos."

Em resumo, podemos identificar como marcas teológicas gerais do fundamentalismo o apelo de retorno aos fundamentos da fé cristã; o compromisso inalienável com pontos fundamentais do cristianismo histórico, especialmente a doutrina da inerrância bíblica e as demais doutrinas disto decorrentes, como a autenticidade e historicidade de todos os relatos bíblicos (nascimento virginal, sacrifício expiatório, ressurreição física, segunda vinda de Cristo, os milagres da Bíblia, etc.); a defesa militante destes fundamentos contra tudo que possa ameaçá-los, como o liberalismo teológico, o evangelicalismo, o humanismo, o ocultismo e tudo mais que for a isto associado; o separatismo eclesiástico de organizações que sejam, mantenham ou tolerem liberais ou outros que ameacem a fé cristã.

Análise Crítica do Fundamentalismo
Aspectos Positivos

Há pontos positivos no fundamentalismo que merecem ser admitidos e mencionados. Primeiro, consideremos o fundamentalismo em sua condição de movimento teológico de retorno aos fundamentos bíblicos do cristianismo histórico, com sua aderência inabalável aos fundamentos da fé cristã, particularmente ao conceito da autoridade das Escrituras, onde estes fundamentos se apóiam. Esta ênfase acabou promovendo uma grande ênfase às doutrinas reformadas, contribuindo para o fortalecimento da fé reformada inclusive entre os batistas em geral, que haviam sucumbido ao arminianismo.

Um outro aspecto positivo do fundamentalismo é sua face apologética, como movimento de defesa da fé, que entende ser tarefa da Igreja cristã defender a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Neste aspecto, é positiva a disposição de lutar em favor da fé bíblica, identificando inimigos potenciais do cristianismo, como o liberalismo teológico, o humanismo, o evolucionismo e o neo-evangelicalismo no que tem gradualmente abandonado a doutrina da infalibilidade da Escritura e adotado tanto o ecumenismo quanto o evolucionismo teísta.

Mencionemos ainda a visão evangelística do fundamentalismo, sempre ativamente engajado na evangelização, preparação de obreiros e divulgação de literatura. Neste sentido, usaram o melhor que a tecnologia pode oferecer, com redes de rádio e TV, organizações e editoras. Exemplos no Brasil: Focus on the Family (James Dobson), Organização Palavra da Vida, Chamada da Meia Noite (Wim Malgo), Clube dos 700 (Pat Robertson), Aliança Cristã Missionária, entre outros.

Aspectos Negativos

Porém, existem alguns aspectos do fundamentalismo que merecem reparo. Primeiro, o conceito fundamentalista de que a separação institucional do erro teológico é o único meio de preservar a verdade cristã. Sob este aspecto, o fundamentalismo crê que não pode haver associação com igrejas, denominações e indivíduos que neguem os pontos fundamentais do cristianismo.

Entretanto, conservadores às vezes têm optado por fazer resistência organizada dentro de suas denominações, quando as mesmas foram tomadas pelos liberais, às vezes com bons resultados. Os conservadores da denominação Batista do Sul dos Estados Unidos, após terem perdido para os liberais em muitos seminários, conseguiram reagir e readquiriram recentemente o controle da denominação e da educação teológica. Nos Estados Unidos, os evangélicos que permaneceram na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) formaram uma Aliança de Igrejas Confessantes, que juntou presbitérios e igrejas conservadoras em torno de uma breve confissão de 3 pontos: infalibilidade da Bíblia, condenação do homossexualismo e salvação somente por Cristo, pontos polêmicos dentro da denominação. As igrejas filiadas à Aliança não dão dízimo para a Assembléia Geral, não aceitam pastores e pastoras homossexuais, e se mobilizam para lutar contra os liberais nos concílios da denominação. Podemos mencionar ainda a formação na Holanda, em 1905, da "Gereformeerde Bond" (Aliança Reformada) dentro da "Igreja Reformada do Estado" (Hervormde Kerk) , que estava aceitando o liberalismo teológico.

E, por fim, o ocorrido na Igreja Presbiteriana da Escócia, onde o número de pastores reformados era pouco mais de três ou quatro cerca de trinta anos passados. Sob a liderança de William Still e posteriormente de David Searle, decidiram permanecer na igreja, ainda que fossem uma insignificante minoria, usando duas armas, a oração e a pregação expositiva, preparando novos pastores que simpatizaram com esta causa. Hoje reúnem um grupo de cerca de 300 pastores a cada ano para a reflexão sobre as marcas da Igreja de Cristo. Não obstante serem ainda minoria no contexto da denominação, existe grande esperança de que a Igreja da Escócia volte a ser o que John Knox desejou e orou em favor dela. Os exemplos acima mostram que o separatismo denominacional e eclesiástico não é o único caminho correto para se lidar com o erro teológico, quando o mesmo se infiltra nas organizações eclesiásticas. Há limites, é claro, para a estratégia mencionada acima, como por exemplo, o abandono de toda confessionalidade por parte de uma denominação ou a aceitação oficial do homossexualismo.

Aqui incluiríamos também, como aspecto negativo, a atitude de desconfiança, crítica e separatismo que alguns fundamentalistas têm para com irmãos conservadores que não pensam como eles em todos os pontos. O fundamentalismo nem sempre consegue conviver com diferentes opiniões, mesmo em questões que não afetam os pontos fundamentais da fé, e acaba tratando com desconfiança irmãos conservadores que concordam com os pontos fundamentais mas que divergem em outras questões.

Um outros aspecto negativo é a identificação atual do fundamentalismo com o dispensacionalismo, além do desenvolvimento de uma síndrome de conspiração mundial para o surgimento do Reino do Anticristo através do ocultismo, da tecnologia, da mídia, dos eventos mundiais, das superpotências. Acrescente-se ainda o desenvolvimento de uma mentalidade de censura e apego a itens periféricos como se fossem o cerne do evangelho e critério de ortodoxia (por exemplo, só é bíblico e conservador quem usa versões da Bíblia baseadas no Texto Majoritário, quem não assiste desenhos da Disney e não assiste "Harry Potter").

Conclusão

Concluímos este artigo indagando sobre a propriedade e conveniência de usarmos o termo "fundamentalista" para descrever cristãos que crêem na importância dos fundamentos bíblicos da fé, como o fundamentalismo acredita. Muito embora não seja, definitivamente, um descrédito para o cristão o compromisso com os pontos fundamentais, certamente muitos não gostariam de ser chamados de "fundamentalistas". O próprio J. Gresham Machen, em várias ocasiões, disse que preferia não ser chamado assim, mas sim um cristão reformado, comprometido com o cristianismo bíblico e histórico. Há vários motivos pelos quais o rótulo não é mais apropriado. Primeiro, pelo caráter emocional do termo. Ele é usado dentro e fora da Igreja para expressar emoções fortes de revolta e rancor da parte dos que o utilizam contra outros que ousam discordar e opor-se de forma firme, mesmo que estejam corretos nesta oposição.

Segundo, pelo caráter vago do termo. Freqüentemente ele é usado em generalizações injustas e maldosas, sem que se faça distinções importantes e sem que se explique o que é um fundamentalista. Atualmente, o termo se tornou tão vago pelo uso generalizado e emocional, que não quer dizer mais nada.

Terceiro, pelo caráter pejorativo do termo. O mesmo tem sido usado para denegrir, rotular e marcar de forma negativa. Funciona apenas como um insulto, boa parte das vezes em que é empregado, e portanto não serve mais como designação da posição teológica de alguém. Os três pontos acima podem ser ditos também de outros termos como liberais, puritanos e pentecostais.

Quarto, porque há diversos aspectos do fundamentalismo com os quais o reformado confessional não se identifica, conforme mencionamos acima. O reducionismo do movimento fundamentalista que, muito embora tenha um sólido centro doutrinário, entretanto deixou de representar, com o passar dos anos, o cristianismo bíblico em toda a sua amplitude, por exemplo, nas questões sociais.

Por fim, o termo fundamentalista se refere a um movimento relativamente recente na história da Igreja, e pode dar a idéia de mais uma novidade ou excrescência da Igreja Cristã moderna americana, enquanto que o reformado confessional se vê como aderente do cristianismo bíblico e das antigas doutrinas da graça.

Postado em 15/09/2011